2026-02-11

Errar é terapêutico

No livro Atreve-te a Falhar, a neurocientista Anne-Laure Le Cunff diz-nos que aceitar o erro como algo natural pode ajudar-nos a lidar com a incerteza e a ansiedade.

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«“Tem a certeza?”», perguntou-me a gerente, genuinamente preocupada. Eu tinha 27 anos, vivia em São Francisco e acabara de entregar a minha rescisão à Google. Estava voluntariamente a abandonar aquele que fora o meu emprego de sonho.» A neurocientista franco-argelina Anne-Laure Le Cunff largou o garantido e, na generalidade ambicionável, emprego numa Big Tech para partir em busca do seu verdadeiro propósito. Essa experiência de quem teve coragem de escolher a vida que quer deu origem ao livro Atreve-te a Falhar, que agora se apresenta em Portugal.

Neste guia, a autora dá-nos ferramentas para viver livremente num mundo obcecado por objetivos, com a propriedade de quem já fez parte dessa torrente ansiosa. «Uma manhã, quando me estava a preparar para o trabalho, reparei que o meu braço tinha ficado púrpura. […] Os médicos encontraram um coágulo de sangue que estava em risco de viajar para os meus pulmões. Era necessário fazer uma cirurgia para o remover.» E nem mesmo este quadro clínico assustador impediu o ímpeto de produtividade de Anne-Laure. «Estava tão preocupada que os projetos em curso na minha equipa fracassassem, que pedi para adiar a cirurgia de modo a conseguir organizar o trabalho.» Felizmente esta história não acabou mal e a operação, ainda que adiada, correu com sucesso. E «porque cada encruzilhada é uma chamada à aventura», algo mudou após a cirurgia.

Recordando a conversa de despedida da Google, a autora afirma que «não, não tinha a certeza de que estava a fazer a coisa certa. Mas não lhe disse isso. Em vez disso, acenei com confiança, dei-lhe um abraço e agradeci-lhe pelos anos de formação». E é neste quadro de incerteza que somos levados a refletir sobre «a maneira experimental» de lidar com a ansiedade e o medo do desconhecido: errar, aceitando a falha como parte natural – e positiva – da vida em contraste com «a maneira automática» em que delineamos um plano de ação ou projetamos um resultado pretendido para driblar o medo ou a ansiedade.

Este experimentalismo proposto pela autora assenta em estudos empíricos e é, garante, um antídoto tanto do burnout como do tédio. Entre as várias práticas deste método, está a curiosidade entendida como um compromisso consciente de habitar o espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que desconhecemos, não com ansiedade e medo, mas com interesse e abertura. Foi isso que levou Anne-Laure a criar a sua primeira start-up, após sair da Google, e mais recentemente, após erros e tropeços, a Ness Labs, uma escola de produtividade consciente para ajudar os criadores a colocarem as suas ideias em prática. A principal lição? «Todos temos dentro de nós possibilidades sem limites; o propósito nunca é, por isso, uma descoberta singular. A vida é uma oportunidade contínua.»

Um livro que nos impele a deixar para trás os modelos antiquados e lineares de sucesso e descobrir o caminho experimental para o sucesso verdadeiro. Atreve-te a Falhar chega à rede livreira nacional no próximo dia 19 de fevereiro com a chancela da Editora Pergaminho e tradução de Isabel Haber.