2026-03-02

As livres, leves e soltas freiras do século XVI têm a resposta para os dramas do século XXI

No livro Sabedoria do Convento, as investigadoras Ana Garriga e Carmen Urbita falam-nos do muito que nos têm a ensinar as mulheres de hábito que escaparam a uma vida de opressão

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Enclausuradas para não viverem presas. Paradoxo? Não, um segredo bem guardado. Quando pensamos em freiras, imaginamos recato, passos solenes a ecoarem em frios corredores de claustros e mãos unidas em oração. Mas a verdade é que estas mulheres eram corajosas, rebeldes e ousadas. Ao escolher o convento, estavam muitas vezes a escapar a uma vida de dependência e opressão familiar e social, e a habitar um inesperado espaço de liberdade e autonomia.

 

Surpreendente? Tanto quanto Sabedoria do Convento, um ensaio das investigadoras espanholas Ana Garriga e Carmen Urbita – autoras do podcast de grande sucesso no país vizinho, Las Hijas de Felipe –, que, combinando investigação histórica com humor mordaz e uma perspicaz análise da cultura popular, revela tudo o que precisávamos, mas não sabíamos, sobre as freiras do século XVI. Figuras que guardam inesperadas lições para os dramas dos nossos dias, porque segundo as autoras, «não importa o século, as freiras sabem o que fazer».

 

Estarão mesmo certas disso? Crises de saúde mental, doom scrolling, extremismo político, ghosting, ansiedade climática, FOMO. Terão mesmo estas mulheres que viveram há cinco séculos a resposta para estas questões? As autoras desta verdadeira «pedra no charco» nem pestanejam: «Fossem clarissas, carmelitas descalças, jerónimas ou dominicanas, as nossas freiras tinham acumulado uma sabedoria coletiva que parece feita à nossa medida.»

 

São inúmeros os casos em que estes ancestrais espíritos livres podem ajudar as mulheres de hoje a enfrentar o caos da vida moderna. Problemas financeiros? Há tudo a aprender sobre truques de criatividade orçamental com Santa Teresa de Ávila (a boss bitch original das carmelitas descalças). Crise de FOMO com as redes das amigas? Com a abadessa María de Jesús de Agredá aprende-se a estar em dois lugares ao mesmo tempo (ou quase). Os dates digitais já agastam? A irmã Benedetta Carlini pode dar as melhores dicas para se fazer match na vida real. Mas esta verdadeira ponte entre séculos não se esgota por aqui e trará às leitoras as melhores dicas para lidarem com a ansiedade, a procrastinação, a síndrome do impostor, os dramas da amizade e as crises amorosas.

 

Além dos problemas concretos das mulheres no dia a dia, também o fascínio pela estética nuncore, que nomes como Rosalia têm vindo a potenciar, é motivo de análise neste livro audacioso traduzido para várias línguas. «Neste ressurgimento da cultura monástica parece haver algo de verdadeiramente revolucionário e jubiloso: um xeque-mate à cultura de isolamento e alienação que rege as nossas vidas no século XXI.» E o motivo, explicam, não é o da candura. «Nunca pensaste seriamente em fazer o voto de castidade, mas quantas vezes fantasiaste com as tuas amigas sobre a possibilidade de se refugiarem do caos do mundo na tranquilidade e no afeto de uma comunidade?»

 

Um livro ímpar no mercado português, que mostra às mulheres como viver a santa vidinha de pecadora que tanto merecem, Sabedoria do Convento chega à rede livreira nacional, com a chancela da Editora Pergaminho e tradução de André C. Fernandes, no próximo dia 5 de março.